Bio

          Coleciono histórias. Esta inclinação começou na minha infância, quando foi me dito que compartilhar estórias era uma forma de aproximarmos do mundo. Assim, eu tento encontrar pedaços de histórias nos ecombros de sonhos e pesadelos, e resgatá-las do esquecimento para revelar o lado obscuro da humanidade onde choque, trauma e esquecimento fazem parte do dia-a-dia, e malignância tornou-se banal. Meu interesse não é somente no ato de relembrar, mas na memória do esquecimento.

          Através dos arquivos públicos eu busco informações sobre o desaparecimento de pessoas no Brasil. As misteriosas circunstâncias dos desaparecimentos, os traumas causados nas famílias e a incerteza dos fatos, transportou-me num mundo imaginário. Como um detetive que tenta montar as peças de um quebra-cabeça, eu queria saber o que aconteceu com a menina que usava vestido vermelho e desapareceu depois que saiu de casa para ir comprar pão. Onde está o menino que foi andar de bicicleta e desapareceu? O que aconteceu com a menina que brincava em frente de sua casa e nunca retornou a ela? As únicas respostas que encontro estão na minha imaginação. Comecei a criar estórias porque não temos certeza de nada. Não há prova. Os destinos são incertos. A única verdade é sobre os desaparecimentos.

          Neste caminho, eu tento tento ler os traços da identidade capturada no momento antes do desaparecimento. Estórias, objetos e instalações, os objetos e estórias podem representar este momento da ausência, transformados em testimônios mudos daqueles que foram levados. Lendo estorietas, ouvindo sons, vendo images e objetos, ou transitando pelo espaço, o espectador é situado entre o presente e o passado.

​          Mães, pais, tias e tios, professores e vizinhos são convidados a participarem deste interminável compasso de vozes, palavras, objetos e imagens. Quando abrem seus arquivos públicos e privados, eles me ajudam a coletar vestígios na cidade, inventar cenários, criar peças de quebra-cabeça com palavras e acontecimentos, e escrever em forma de fragmentos. Bordar texts nos tecidos, imprimir em papel térmico e manipular objetos do mundo infantil, a perda humana é transformada em estorietas. Textos e imagens são transformados em outras escritas, objetos e outras imagens, quase desaparecendo, como uma metáfora sobre a impossibilidade de retermos memória, de fixarmos imagens permanentemente.

Flávia Berindoague

Belo Horizonte, MG, Brasil

Vive e trabalha em USA